A comoção e o tom emocionado do governador durante a visita reservada não convenceram os internautas. Nas redes sociais, Rafael Fonteles virou alvo de contestação imediata
Da REDAÇÃO
PARNAÍBA-PIAUÍ
17h45
A obstinação do governador Rafael Fonteles (PT) em demonstrar que o Porto de Luís Correia — agora rebatizado de Porto Piauí — está em pleno funcionamento acabou gerando o efeito oposto. Uma vistoria realizada pelo chefe do Executivo estadual na última segunda-feira (29 de junho) virou piada nas redes sociais e reergueu duras críticas sobre a real viabilidade do complexo portuário.
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Rafael Fonteles sobrevoando o Porto Piauí. Fotos: divulgação. |
Sem convocar a imprensa e acompanhado apenas por aliados próximos, Fonteles foi ao local conferir a chegada do graneleiro Konta II. O que era para ser um marco de eficiência, contudo, expôs as limitações técnicas da obra.
Entenda o "arranjo" logístico e os custos milionários
Segundo informações oficiais do próprio site do Governo do Estado, o Konta II (de 109 metros) é uma das poucas embarcações que conseguem atracar no terminal piauiense. O motivo? Falta de calado (profundidade suficiente), um problema crônico que não afeta portos vizinhos consolidados, como o de Pecém (CE) e o de Itaqui (MA).
Para contornar a limitação, o governo desenhou uma operação complexa — e de alto custo:
- O navio principal: o Marine Victory, de 250 metros de extensão, não consegue se aproximar da costa devido à baixa profundidade. Ele está ancorado a cerca de 30 km do litoral do Piauí.
- A logística: o barco menor (Konta II) precisará fazer sucessivas viagens de ida e volta para transbordar a carga do Porto Piauí até o navio principal.
- O prejuízo diário: até o fechamento desta matéria, o governo — que opera o terminal por meio da companhia Porto Piauí, administrada por Fábio Freitas — não divulgou os valores oficiais da operação. No entanto, estimativas de mercado apontam para cifras milionárias.
Somente o aluguel/ancoragem do Marine Victory custa cerca de US$ 100 mil por dia. Como a embarcação já está na costa piauiense há pelo menos 15 dias, a conta preliminar já ultrapassa a casa dos milhões de reais.
Reações nas redes: “Não passa de um arranjo”
A comoção e o tom emocionado do governador durante a visita reservada não convenceram os internautas. Nas redes sociais, Rafael Fonteles virou alvo de contestação imediata.
“Ele quer porque quer dizer que existe uma operação de Porto. Mas complexo portuário mesmo só temos o de Pecém e o de Itaqui. Esse do Piauí não passa de um arranjo. E muito mal feito”, criticou um usuário em uma publicação no Instagram.
Ciro Nogueira ironiza e evoca "O Bem-Amado"
A oposição não demorou a capitalizar o episódio. O senador Ciro Nogueira (Progressistas), principal fiador da pré-candidatura de Joel Rodrigues ao governo, utilizou a ironia para classificar a movimentação do petista como uma "sátira política", comparando-o ao clássico personagem Odorico Paraguaçu, da obra O Bem-Amado, de Dias Gomes.
Na clássica sátira, Odorico é um prefeito demagogo que tenta a todo custo inaugurar o cemitério da cidade fictícia de Sucupira, recorrendo a manobras absurdas para conseguir um "defunto" e promover sua gestão.
O que diz a oposição
“A cena do governador indo até o local do Porto, querendo a todo custo entregar, mas sem a presença da imprensa, só ele e as pessoas dele, fazendo propaganda em ano eleitoral... Aquilo ali me lembra o Odorico Paraguaçu. Aquele barco vai para um outro barco, que fica distante, fazendo essa viagem todo dia... qual o custo dessa operação? Um navio daquele, parado por dia, tem um custo absurdo. Eu não sou contra. Gostaria que tivesse um porto, mas eu tenho uma certa experiência e sei quando se tenta enganar o povo do estado do Piauí.”
— Ciro Nogueira, senador (PP-PI).
Até o momento, a assessoria do Palácio de Karnak e a administração do Porto Piauí não se manifestaram sobre o teto dos gastos da operação de transbordo ou sobre as críticas da oposição.